Alívio dos juros não se sente no bolso
Os números não mentem. Os juros para o consumidor estão mais baixos. Pelos cálculos da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), as taxas para crédito estão no menor nível dos últimos 17 anos.
O movimento é positivo e mostra que o sistema financeiro está se ajustando à nova realidade de juros mais baixos. Mas por que é tão difícil sentir um certo alívio no bolso?
A resposta mais rápida é o tempo. A redução recente dos juros só se aplica aos novos contratos de financiamentos. Por isso, quem fez dívida há mais tempo e ainda tem prestações pela frente não vai receber esse benefício.
Mas a resposta que faz sentido é a que leva em conta a composição das dívidas da maioria dos brasileiros. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), quase 75% das famílias endividadas no país não está conseguindo pagar o cartão de crédito, justo a modalidade mais cara do mercado. Pela pesquisa da CNC, a inadimplência das famílias é de cerca de 20% com carnês de lojas e de 13% com crédito direto ao consumidor.
Aliás, de acordo com os número da Anefac, caíram os juros de praticamente todas as modalidades pesquisadas de crédito para pessoas físicas, menos os do crédito rotativo do cartão. Segundo a associação, essa taxa não se mexe há mais de dois anos, mesmo com todo o movimento de queda dos juros nos últimos seis meses. Paga-se no cartão de crédito, em média, pouco mais de 10,5% ao mês, o que dá quase 240% ao ano; contra 105,36% de juros médios gerais para pessoa física.
Se tem uma indústria no Brasil que está crescendo feliz é a de cartão de crédito. Nos primeiros três meses do ano, o faturamento do setor cresceu nada menos que 23%, em comparação ao mesmo período de 2011. Somos quase 200 milhões de habitantes com mais de 700 milhões de cartões em circulação, entre os de crédito, débito e de lojas, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).
A evolução desse mercado é um sinal positivo de desenvolvimento econômico e social, mas pode se transformar num problema se for mal utilizado. O tentador do cartão é que o dinheiro é “fácil”, não demanda a constrangedora aprovação de crédito pelo banco, pode-se financiar a fatura sem precisar negociar com o gerente, além de ser um sinal de melhor status do consumidor. Mas esse luxo todo tem um preço indecentemente caro.
A queda dos juros que vem sendo promovida pelo BC certamente vai causar novas reduções nas taxas de financiamentos até o final do ano. Mas, para gerar alívio e percepção de que o dinheiro está realmente mais barato, os juros para o consumidor caminham a passos de tartaruga, não de lebre.
Do G1
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